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  • ALGUMAS RECOMENDAÇÕES DE MANEJO COMPORTAMENTAL PARA ODONTOPEDIATRAS

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    Odontopediatras são profissionais que têm como tarefa identificar e tratar problemas odontológicos em crianças, bem como prevenir sua ocorrência futura e promover a saúde bucal desta população. Para isso enfrentam, em seu cotidiano, além de questões clínicas que lhes foram ensinadas ao longo de sua formação profissional, demandas que requerem conhecimentos e técnicas comportamentais para lidarem com diferentes atitudes infantis que podem impedir ou dificultar a realização dos procedimentos necessários. Portanto, para realizarem tratamentos efetivos e de modo seguro, cirurgiões-dentistas que trabalham com crianças precisam ser capazes de identificar comportamentos adequados e inadequados e seus determinantes, aplicar estratégias de resolução de problemas e desenvolver empatia em relação à criança e à família – tarefa estas árduas e desafiadoras. Bons profissionais devem buscar capacitar-se em relação a esse assunto de modo constante, a fim de otimizar sua atuação profissional. Esse artigo apresenta algumas recomendações básicas baseadas em conhecimentos das ciências comportamentais que podem auxiliar esses profissionais em sua tarefa.

     

    Comunicação

    Uma boa comunicação e o uso apropriado de instruções e comandos são necessários ao lidarmos com todo tipo de criança, seja seu comportamento colaborativo ou não. No começo de uma consulta, fazer perguntas e ouvir de modo atento pode ser o início de uma boa relação. O papel do profissional e do paciente deve ser esclarecido, de modo a educar o paciente e maximizar as chances de um tratamento seguro e de qualidade. Assim que se inicia um procedimento, o odontopediatra deve ser diretivo e claro em relação aos comportamentos esperados da criança, descrevendo a ação requerida e sua importância (ex: “Abra bem a boca para que eu possa ver todos os seus dentinhos”.). É essencial observar a linguagem corporal da criança, não só para verificar se ela compreende o que lhe é dito, mas também para avaliar seus níveis de dor/desconforto.

     

    Pré-visita positiva por imagens

    Nessa técnica, são mostradas fotos ou imagens positivas de odontologia e de tratamentos dentais na sala de espera, antes da consulta odontológica. Com as crianças, isso também pode ser feito por meio de livro de histórias, gibis, desenhos animados, filmes, etc. O objetivo dessa técnica é dar uma previsão para a criança do que esperar durante seu atendimento e criar um contexto de questionamento e curiosidade sobre o ambiente odontológico, que podem ser atendidos pelo dentista antes do atendimento.

    Obs: Uma variação é a técnica de Observação Direta, na qual a criança é convidada a assistir o atendimento odontológico de um paciente pediátrico cooperativo, com os mesmos objetivos.

     

    Diga-mostre-faça

    Está técnica consiste em: a) explicar verbalmente os procedimentos para a criança numa linguagem adequada a seu nível de desenvolvimento (diga); b) demonstrar ao paciente os aspectos visuais, auditivos, olfativos e táteis do procedimento de modo programado, seguro e não ameaçador (mostre); c) realizar o procedimento, sem desviar do que foi dito e mostrado. O objetivo é familiarizar o paciente com o setting odontológico, ensinando aspectos importantes sobre o tratamento odontológico, bem como modelar seu comportamento por meio de dessensibilização e de uma boa descrição do que se espera da criança.

    Obs: Esta técnica é usada em conjunto com as de Comunicação e de Reforço Positivo.

     

    Pergunte-Diga-Pergunte

    Nessa técnica, a) pergunta-se ao paciente sobre seus sentimentos a respeito da visita ao dentista ou de qualquer procedimento que será realizado (pergunte); b) explique os procedimentos por meio de demonstrações e linguagem não ameaçadora e adequada a seu nível cognitivo (diga); c) indague se o paciente entende e como se sente a respeito daquele tratamento (pergunte). Caso ainda haja preocupações por parte do paciente o dentista pode abordá-las, avaliar a situação e, se necessário, modificar o procedimento ou a técnica comportamental para facilitar sua aceitação. Os objetivos desta técnica são analisar os níveis de ansiedade do paciente que podem levar a comportamentos não colaborativos durante o tratamento, ensinar o paciente sobre os procedimentos e confirmar se o paciente está mais confortável com o procedimento antes do seu início, evitando assim a ocorrência de comportamentos inadequados. A técnica pergunte-diga-pergunte deve ser usada apenas com pacientes com repertório verbal bem desenvolvido.

     

    Controle de Voz

    O controle de voz é a utilização de uma alteração intencional no volume, tom ou ritmo da voz para influenciar e controlar o comportamento do paciente. Essa técnica tem como objetivos conseguir a atenção e a colaboração do paciente, cessar a ocorrência de comportamentos não colaborativos e estabelecer os papéis esperados do profissional e do paciente.

     

    Comunicação Não-Verbal

    Envolve o ensino e o reforço do comportamento esperado por meio de contato apropriado, postura, expressão facial e linguagem corporal. Tem por objetivos aumentar a efetividade das outras técnicas de comunicação e obter a atenção e a colaboração do paciente.

     

    Reforço Positivo e Elogio Descritivo

    No processo de ensino de comportamentos desejáveis aos pacientes, é essencial fornecer feedback apropriado. O reforço positivo consiste em aumentar a chance de ocorrência futura do comportamento adequado por meio da apresentação de uma consequência positiva (chamada reforçadora) logo após sua ocorrência. Há reforçadores sociais, como tom de voz agradável, expressão facial, elogio verbal e demonstrações físicas adequadas de afeto (abraços, afagos, apertos de mão) que podem ser usados pelo odontopediatra. Os elogios devem ser sempre descritivos, enfatizando de modo específico os comportamentos cooperativos (“Obrigada por ficar sentado quietinho”, “Você está fazendo um bom trabalho deixando a boca bem aberta!”). O objetivo destas técnicas é reforçar o comportamento desejado, tornando-o cada vez mais frequente.

     

    Distração

    Técnica que envolve chamar atenção do paciente para outro aspecto do ambiente que não o procedimento desconfortável/doloroso. Para isso, pode-se utilizar TV, games ou mesmo fazer um intervalo no meio de um procedimento muito estressor. O objetivo da distração é diminuir a percepção de desconforto e prevenir a ocorrência de comportamentos não colaborativos.

     

    Outras Técnicas

    Técnicas de Sedação e Anestesia Geral são recomendadas apenas em casos nos quais a criança não tenha condições de maturidade, físicas ou mentais de enfrentar determinado procedimento. As técnicas de Restrição Física são fortemente desaconselhadas, pois constituem um atentado à dignidade e aos direitos do paciente, e podem acarretar sérias consequências psicológicas para as crianças.


Mariana Amaral
Psicóloga Graduada pela UEL, Especialista em Análise do Comportamento Aplicada pela UniFil, Mestre em Análise do Comportamento Aplicada pela UEL e Doutoranda em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento pela PUC-SP. Atua como psicóloga clínica, palestrante, pesquisadora e docente universitária. Membro da equipe de pesquisa vencedora do Prêmio Jovem Pesquisa da Sociedade Europeia de Psicologia da Saúde, em 2010, com o trabalho Behavior Analysis in the context of Pediatric Dentistry.